Cadeias globais de suprimento do agronegócio enfrentam novos desafios

Num mundo sem regras, a resiliência do Supply Chain do agro vem do comércio aberto, da diversificação de parceiros e rotas, de contratos mais longos, de produtividade e de confiança

Por Marcos Jank – Estadão – 03/10/2026

Nesta semana participei na Universidade de Harvard de um amplo debate do PAPSAC – grupo que reúne governos, empresas e academia para discutir políticas agroalimentares – sobre um tema que ganhou urgência: como construir resiliência nas cadeias globais de suprimento do agronegócio diante das turbulências atuais.

O ponto de partida é o mundo desgovernado e sem regras em que vivemos. As normas do pós-guerra perderam força, e o protecionismo voltou com tarifaços, cotas, restrições a exportações e barreiras não tarifárias. A segurança alimentar passou a ser tratada como segurança nacional. Eficiência e interdependência cederam espaço à soberania e à segurança. No comércio, o multilateralismo e o regionalismo deram lugar ao bilateralismo e ao unilateralismo.

A China fez da autossuficiência uma política de Estado, o que vai impactar no comércio global 

Dois casos ilustram a mudança. Os Estados Unidos espalharam tarifaços unilaterais pelo mundo, sem qualquer critério razoável, ao mesmo tempo que ampliaram os subsídios compensatórios aos seus produtores. A China fez da autossuficiência uma política de Estado: seus 14º e 15º planos quinquenais buscam reduzir a dependência de importações de soja e carnes por meio da injeção maciça de tecnologia no campo e do menor uso de farelo de soja nas rações animais. A meta é real, mas a execução será lenta.

Somam-se a isso guerras, conflitos e disrupções logísticas que vêm afetando o suprimento de fertilizantes, energia e alimentos, levando países e empresas a diversificar fornecedores ou mesmo relocalizar a produção. E há o clima: eventos extremos elevam a volatilidade de safras e preços. O resultado é inflação nos insumos e nos produtos agroalimentares e, portanto, maior insegurança alimentar no planeta, atingindo sobretudo os mais vulneráveis.

Diante disso, a tentação é fechar fronteiras. Seria um erro. Apenas 20% das calorias consumidas no mundo vêm do comércio. Os outros 80% são abastecidos por produção própria, o que coloca o agro entre as cadeias menos integradas da economia mundial.

Além disso, a população cresce justamente onde a produtividade é baixa: a produtividade total dos fatores agrícolas cresce 2,5% ao ano no Brasil, 1,4% no mundo e apenas 0,4% na África Subsaariana.

É o comércio que preenche as lacunas de insumos e alimentos do planeta. Fechar mercados em nome da soberania e da segurança reduz a resiliência das cadeias globais do agro, em vez de aumentá-la.

A geografia das cadeias também merece atenção. Produtos frescos e refrigerados podem vir de perto, no chamado nearshoring – o comércio com países próximos. Mas as grandes commodities dependem de cadeias longas, complexas e concentradas, em que poucos países dominam cada produto. Nessa área, o novo risco não é a distância, mas sim o friend-shoring – o comércio administrado com países ideologicamente alinhados –, que não responde nem à geografia nem às vantagens comparativas.

A lição é clara: resiliência é ter várias alternativas de fornecedores, clientes e rotas, contratos de abastecimento cobrindo períodos mais longos, seguros e tecnologia, além de eventuais estoques estratégicos. A autossuficiência não é solução. Um sistema aberto e diversificado absorve choques melhor do que um sistema fechado e autárquico.

Do lado da demanda, o crescimento das exportações do agro continua, mas desacelera e muda de endereço. A participação da China no aumento do consumo mundial deve cair de 32% para 13%, enquanto a da Índia e do Sudeste Asiático sobe de 32% para 39%, segundo a OCDE-FAO. Mas não haverá uma “nova China” tão cedo: Índia e África ainda não viveram a urbanização e o salto de renda que criaram a maior classe média emergente do planeta. O próximo motor do agro talvez não esteja na segurança alimentar, e sim na segurança energética, com os novos produtos, usos e processos da bioenergia.

Levo a Harvard três mensagens. Primeiro, diversificar sem desglobalizar: mais origens, destinos e rotas, não menos comércio. Segundo, resiliência se constrói com produtividade: P&D, biotecnologia, irrigação, infraestrutura e logística. Terceiro, em vez do nearshoring ou do friend-shoring, melhor seria nos posicionarmos pelo trust-shoring: como produtor grande, confiável e competitivo. Num mundo sem regras, o Brasil tem muito a ganhar sendo o fornecedor em quem o mundo confia.

Cadeias globais de suprimento do agronegócio enfrentam novos desafios – Estadão 

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Ferramentas de IA mudam hábitos de consumo e desafiam estratégias de gigantes do ecommerce

  • Analistas do BTG Pactual dizem que agentes de IA se tornaram uma nova plataforma de distribuição
  • Amazon, Mercado Livre e Walmart desenvolvem ferramentas próprias e adotam estratégias diferentes para disputar espaço

Júlia Galvão – Folha – 5.out.2026 

O uso da inteligência artificial começa a mudar a forma como consumidores encontram os produtos, e pode alterar a dinâmica de competição do e-commerce.

Agora, em vez de entrar em um marketplace, fazer uma busca, comparar opções e concluir a compra, o consumidor pode passar parte desse processo para um agente de IA, como ChatGPT, Gemini ou Claude. Em determinados casos, inclusive, eles podem até realizar a compra em seu nome.

Esse modelo, chamado de comércio agêntico, pode se tornar uma nova forma de distribuição de produtos, segundo relatório produzido pelos analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, do BTG Pactual.

Gigantes como Amazon, Mercado Livre e Magazine Luiza já desenvolvem ferramentas para acompanhar essa mudança, mas adotam estratégias diferentes sobre o papel que os agentes de IA devem desempenhar na jornada de compra.

Robô do Mercado Livre no centro de distribuição da empresa em Cajamar (SP); ferramentas de IA representam desafio para gigantes do setor – Divulgação

Esse movimento ainda representa uma parcela pequena do tráfego que chega aos sites de e-commerce, mas tem crescido rapidamente. Dados da Similarweb citados pelo BTG mostram que os acessos a sites de varejo originados por IA cresceram 203% entre junho de 2025 e maio de 2026, mas ainda representam apenas cerca de 0,4% do total de visitas.

Quando são considerados apenas os marketplaces, o volume foi de 46,8 milhões de visitas mensais geradas por IA, em média —alta de 237% em relação a igual período do ano anterior.

Para Cassiano Piekarski, CEO e cofundador da Inbix, empresa especializada em aprendizagem corporativa e inteligência artificial aplicada aos negócios, nesse contexto, a principal mudança na dinâmica de competição entre os grandes marketplaces está no ponto de descoberta do produto.

“Hoje, quem controla a vitrine, o feed, a primeira página do marketplace, controla a venda. Quando o consumidor passa a perguntar para uma IA qual o melhor produto para a sua demanda, essa vitrine passa a estar na ferramenta de IA”, afirma.

Segundo Piekarski, isso também muda os critérios de ranqueamento e tem levado empresas a investir no chamado GEO, sigla em inglês para a adaptação de sites e conteúdos visando melhorar sua presença nas respostas de IAs generativas.

O avanço dos agentes também pode fazer as varejistas perderem parte do contato direto com o consumidor. Se antes a jornada acontecia dentro do marketplace, agora a IA pode assumir decisões como quais produtos comparar, qual vendedor escolher e onde realizar a compra, diz o relatório.

Segundo o BTG, isso coloca em risco três ativos dos marketplaces: tráfego, dados dos clientes e publicidade. Com menos consumidores navegando diretamente pelas plataformas, as empresas podem ter menos oportunidades de exibir anúncios e entender o comportamento dos usuários.

O movimento também pode aumentar a dependência das varejistas em relação às plataformas de IA, assim como o Google se tornou uma fonte de tráfego para sites de comércio eletrônico.

Para Piekarski, o risco é que as varejistas acabem reduzidas ao papel de fornecedoras de estoque e logística. “Pode perder o relacionamento, os dados de comportamento e também a chance de construir marca justamente na hora da compra. Resistir a essa mudança não adianta, então o caminho é se preparar para ela”, diz.

VAREJISTAS ADOTAM ESTRATÉGIAS DIFERENTES

As grandes varejistas têm seguido caminhos distintos diante desse movimento. Na última semana, a Amazon bloqueou o agente Muse, da Meta, de realizar compras em sua plataforma e restringiu o acesso de outros agentes. Ao mesmo tempo, desenvolve suas próprias ferramentas de IA.

Mais de 250 milhões de clientes já usaram o Rufus, rebatizado de Alexa for Shopping em maio, segundo a companhia. A Amazon também ampliou o Buy for Me, que permite à IA comprar produtos em sites de terceiros em nome do consumidor.

A empresa afirma, em nota, acreditar que aplicativos de terceiros que se propõem a fazer compras em nome de clientes devem operar de forma transparente e respeitar a decisão de cada provedor sobre participar ou não. Isso justificou o banimento ao Muse.

“É assim que outros já funcionam, como aplicativos de delivery e os restaurantes para os quais fazem pedidos, serviços de entrega e as lojas em que compram, e agências de viagens online e as companhias aéreas cujas passagens vendem”, afirma a companhia.

O Mercado Livre desenvolve uma busca aprimorada por IA e testa um assistente de compras, que explora diferentes aplicações de IA para a jornada de compra, incluindo busca e decisão. Em nota enviada à Folha, a companhia diz que as ferramentas continuam em desenvolvimento, e que só compartilharia detalhes de novos produtos após o lançamento oficial.

Outra varejista importante no Brasil, o Magazine Luiza diz ter desenvolvido uma plataforma de comércio conversacional, o WhatsApp da Lu. A ferramenta funciona como um personal shopper, na qual a IA busca e recomenda produtos, refina as sugestões conforme o perfil e o orçamento do cliente, e permite concluir a compra no próprio aplicativo de mensagens.

Em setembro, segundo a companhia, o WhatsApp da Lu registrou 100 mil pedidos. Desde o lançamento, em outubro do ano passado, a ferramenta já captou R$ 200 milhões em vendas e foi usada por mais de 9,7 milhões de clientes.

Para Mario Machado, assessor de investimentos da InvestSmart, a vantagem das grandes plataformas não está necessariamente na tecnologia de IA, que pode ser comprada, mas nos dados que elas acumulam sobre os consumidores.

“O que não se compra é um modelo treinado no histórico de transações da própria plataforma, com o que cada cliente procurou, comprou, devolveu e em quanto tempo pagou”, afirma.

Segundo ele, esse histórico ganha ainda mais valor quando a empresa também controla outras etapas da operação, como logística, pagamentos e crédito. Nesse caso, os dados podem ser usados para melhorar previsões, reduzir custos e orientar decisões

Comércio com IA avança e muda disputa no ecommerce – 05/10/2026 – IA – C-Level 

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Google remove mais de 40 canais com falsos médicos de IA após reportagens da BBC News Brasil

Reportagem da BBC News Brasil mostrou que vídeos gerados por IA com médicos viralizam entre idosos no Brasil e superam 70 milhões de visualizações

Luiz Fernando Toledo – BBC News Brasil – 1 outubro 2026

O Google informou à Advocacia-Geral da União (AGU) que removeu do YouTube 46 canais e 11 vídeos com falsos médicos criados por inteligência artificial.

A retirada ocorreu após uma notificação extrajudicial enviada pelo governo no início de setembro.

Segundo a AGU, os conteúdos divulgavam informações falsas sobre saúde, promessas de cura e tratamentos sem comprovação científica.

Em resposta encaminhada na segunda-feira (28/9), o Google disse que outros 32 canais e quatro vídeos listados na notificação já estavam indisponíveis quando a recebeu. Dois canais foram desmonetizados (ou seja, deixaram de dar dinheiro aos seus criadores por meio de anúncios na plataforma).

A medida ocorre dois meses após reportagens da BBC News Brasil revelarem uma indústria de canais que utiliza personagens fictícios — e até imagens clonadas de médicos reais — para alcançar principalmente o público idoso.

A empresa afirmou, de acordo com a AGU, que excluiu os canais por violações às regras do YouTube, fraude e roubo de identidade.

O ministério alertou que as publicações poderiam estimular a automedicação, o uso de terapias sem eficácia comprovada e a interrupção de tratamentos reais. As informações também foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina.

Rede alcançou milhões de visualizações

O rosto e a voz são gerados por inteligência artificial; roteiros podem ser escritos por plataformas como o ChatGPT, a narração é produzida por ferramentas de voz sintética e as imagens também são criadas por IA

Em julho, uma investigação da BBC News Brasil mostrou que 29 canais em português dedicados a falsos médicos de IA acumulavam mais de 70 milhões de visualizações.

O levantamento, feito a partir de dados da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, encontrou uma produção em escala industrial, com cerca de dez vídeos novos por dia.

A BBC analisou aproximadamente 27 mil comentários e encontrou relatos de idosos que afirmavam ter colocado em prática as orientações. Entre eles, havia pessoas que disseram ter substituído medicamentos prescritos por alimentos, plantas ou tratamentos caseiros.

Uma mulher de 82 anos contou à reportagem que acreditava estar assistindo a um médico verdadeiro. “Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível”, afirmou.

Após ser procurado pela BBC, o Google removeu alguns dos maiores canais presentes no levantamento, que somavam cerca de 41 milhões de visualizações. Outros permaneceram disponíveis.

Na ocasião, a empresa afirmou que todo conteúdo publicado no YouTube, inclusive aquele gerado por IA, deve seguir suas diretrizes. Segundo o Google, as regras proíbem informações incorretas sobre prevenção e tratamentos capazes de causar danos graves no mundo real.

Imagem de médico real foi clonada

Uma segunda reportagem da BBC revelou que ao menos cinco canais utilizaram, sem autorização, o rosto e a identidade do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro. Os vídeos reproduziam artificialmente sua aparência para recomendar supostos tratamentos naturais e fazer afirmações alarmistas sobre saúde.

Brasileiro descobriu os clones ao ver sua imagem na primeira reportagem da BBC. Depois da publicação, denunciou os vídeos ao YouTube e registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo.

O caso foi encaminhado ao 3º Distrito Policial de Sorocaba, que abriu investigação para identificar os responsáveis pelos canais. A apuração considera, entre outras possíveis infrações, falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.

Em despacho, a delegada Alessandra Silveira afirmou que a disseminação de desinformação médica por meio de simulação biométrica exigia atuação imediata da polícia e poderia gerar risco de envenenamento ou automedicação.

Além desse inquérito conduzido pela Polícia Civil, o novo relatório do Ministério da Saúde foi enviado à Polícia Federal.

A notificação ao YouTube faz parte de uma força-tarefa que reúne o Ministério da Saúde, AGU e Secretaria de Comunicação Social da Presidência.

O governo recomenda que usuários confirmem orientações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento em fontes oficiais e denunciem conteúdos que possam colocar a saúde de outras pessoas em risco.

Google remove mais de 40 canais com falsos médicos de IA após reportagens da BBC – BBC News Brasil 

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Drones navais da Ucrânia estão transformando a guerra com a Rússia no mar

Eles começaram como lanchas modificadas. Agora, os drones marítimos ucranianos funcionam como porta-aviões em miniatura, e outros países querem participar

Por Maria Varenikova – Estadão/The New York Times – 04/10/2026

Os drones navais ucranianos percorrem o Mar Negro equipados com mísseis terra-ar, prontos para abater aeronaves de guerra inimigas. Eles transportam drones de ataque aéreo para mais perto dos alvos. E, neste mês, um drone ucraniano foi filmado em uma batalha aquática entre drones contra um equivalente russo.

Quando a Rússia iniciou sua guerra em grande escala contra a Ucrânia, Moscou dominava as vias navegáveis. Kiev ampliou suas operações com drones, acabando por afundar cerca de um terço da tão alardeada frota russa do Mar Negro com o que equivalia a lanchas explosivas controladas remotamente.

Agora, a Ucrânia está dando um passo adiante ao estabelecer camadas offshore de defesa e ataque com drones, transformando a guerra naval nesse processo.

Novas tecnologias chegam ao mar a cada mês. Em um caso, um barco-drone depositou um veículo terrestre de quatro rodas, controlado remotamente e equipado com uma metralhadora, em uma península ocupada pela Rússia, no que a Ucrânia chamou de o primeiro ataque anfíbio totalmente robótico da história.

Embarcações navais operadas remotamente não são exclusividade da Ucrânia. Os rebeldes houthis do Iêmen utilizaram um barco-drone em um ataque a uma fragata saudita há quase uma década. No meio desde ano, os Estados Unidos utilizaram Corsairs não tripulados para resgatar a tripulação de um helicóptero abatido e para atacar uma instalação naval. Mas o sucesso da Ucrânia no combate a uma Marinha russa muito maior está sendo estudado por planejadores militares de Taipé a Tallinn.

“Países em todo o mundo estão olhando para a Ucrânia como um exemplo de como utilizá-los em suas próprias marinhas”, disse Emma Salisbury, pesquisadora sênior do Programa de Segurança Nacional do Instituto de Pesquisa em Política Externa.

Embarcações controladas remotamente não substituem uma marinha tradicional, afirmou Sam J. Tangredi, professor da Escola Superior de Guerra Naval dos EUA. “Os drones são ferramentas no conjunto de ferramentas”, disse ele. “São sistemas úteis. Serão utilizados em guerras. Mas não alteram o equilíbrio de forças.”

Ainda assim, o fato de a frota de drones da Ucrânia ser barata e composta por equipamentos prontos para uso significa que as barreiras à entrada são baixas para potenciais fornecedores do setor de defesa. Vinte e sete empresas ucranianas estão experimentando novas plataformas e tecnologias navais, testando diferentes modelos e capacidades, o que impulsiona a inovação, segundo Dennis Kanin, diretor da Associação Naval Não Tripulada da Ucrânia, um grupo setorial.

“Pelo custo de manutenção de um único navio de guerra, com drones aquáticos seria possível garantir a segurança de um país pequeno”, disse Kanin.

Interesse do exterior

A tecnologia de drones marítimos da Ucrânia chamou a atenção do mundo. A UFORCE, empresa fundada na Ucrânia, fechou recentemente um acordo para uma joint venture com o objetivo de iniciar a produção nos Estados Unidos. A empresa fabrica os drones marítimos Magura, os primeiros drones kamikaze utilizados pela Ucrânia.

A maior empresa de defesa da Noruega, a Kongsberg, abriu um escritório na Ucrânia e começou a colaborar com a fabricante ucraniana dos drones marítimos Sargan. Outros países nórdicos, os países bálticos e o Japão também propuseram colaboração, afirmam empresários ucranianos.

“Todos esses anos, desde que os drones marítimos começaram a afundar a frota russa, os países vêm nos procurando com o objetivo de adquirir essas embarcações para si mesmos ou estabelecer produção nacional, incluindo países do Golfo Pérsico”, disse Kyrylo Budanov, chefe de gabinete do presidente da Ucrânia.

Em março, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia estava negociando com os países do Golfo a entrega de seus drones navais, juntamente com sistemas de defesa aérea, embora não esteja claro em que pé estão esses acordos atualmente.

Ao contrário de Kiev, que fica a mais de 160 quilômetros da fronteira russa, protegida por várias camadas de defesa aérea, áreas costeiras como Odessa — ou mesmo Abu Dhabi ou Dubai — têm pouco tempo de aviso antes de um ataque com um Shahed, um drone explosivo de projeto iraniano. Implantar defesas aéreas no mar proporciona mais tempo para detectar e abater drones que se aproximam.

“Para os países do Golfo, isso pode ser extremamente relevante”, afirmou Oleksiy Honcharuk, ex-primeiro-ministro ucraniano e presidente do conselho da UFORCE. “O tempo de voo dos Shaheds até seus alvos é curto, enquanto eles possuem muitas cidades litorâneas e terminais de petróleo localizados na costa.”

Para empresas do setor de defesa e planejadores militares, a tecnologia ucraniana oferece vantagens. Os sistemas ucranianos foram testados em combate, tendo operado sob fogo russo em ambientes sem sinal de GPS. Além disso, as Forças Armadas da Ucrânia e as startups de defesa que as abastecem têm se concentrado em drones baratos e fáceis de construir, plataformas que podem ser ampliadas rapidamente.

“Em vez de pensar em um B-52 voando por 75 anos, você pensa em algo que, se não for usado em conflitos do primeiro ao quinto ano, talvez possa ser desmontado para sucata e utilizado em uma nova missão”, disse Cynthia R. Cook, pesquisadora sênior do Centro para a Base Industrial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Os programas menores permitem uma renovação mais rápida.”

Tecnologia testada em combate

Essa nova forma de poder naval começou, como tantas invenções, com uma série de fracassos.

Os primeiros drones Magura foram baseados em uma lancha civil produzida em Odessa. Os ucranianos começaram a testar os drones marítimos no início de 2023, e os drones se tornaram mais sofisticados com o tempo.

“Nós perdíamos o drone, depois íamos atrás dele, o rebocávamos de volta, mexíamos nele, consertávamos alguma coisa, e isso se repetia várias vezes”, disse um comandante com o codinome “Treze”, enquanto seus pilotos testavam drones marítimos em um local secreto. Ele comanda uma unidade de drones marítimos administrada pela agência de espionagem militar da Ucrânia, conhecida como HUR.

Em um dia escaldante deste verão, em um campo de treinamento diferente, outro comandante de unidade da agência, conhecido como “Nono”, sentou-se em um balanço infantil à beira de um lago na região central da Ucrânia. Enquanto o balanço oscilava suavemente, ele observava a versão mais recente de sua tecnologia sulcar as águas calmas do interior.

Tanto Treze quanto Nono pediram para serem identificados apenas por seus codinomes, de acordo com as regras de sua agência.

O lago próximo a onde Nono estava sentado era um local de testes para barcos-drones que lançam drones aéreos — essencialmente porta-aviões em miniatura —, utilizados pela primeira vez no ano passado.

Na época, os planejadores militares ucranianos estavam preparando um ataque aos portos marítimos russos de Tuapse e Novorossiysk, disse Nono. Os russos haviam instalado antenas de radar em plataformas de petróleo offshore que estavam ajudando a identificar os barcos-drones que se aproximavam. Os ucranianos precisavam destruir essas antenas na fase inicial de um ataque.

Nono percebeu que drones aéreos interceptadores poderiam ajudar. Ele poderia acomodar muitos deles no convés de um drone marítimo Katran de três toneladas e meia e usá-los para bombardear alvos costeiros a partir do mar — ou, nesse caso, para atingir uma plataforma de petróleo.

Ao anoitecer, Nono ordenou o lançamento de seus drones porta-aviões, disse ele. Eles decolaram dos conveses e voaram em direção aos alvos, guiados por operadores. Os interceptadores reaproveitados destruíram as antenas e mataram os soldados russos que as operavam. Com os radares neutralizados, outros drones marítimos passaram despercebidos e atacaram os portos russos.

Outro novo uso para as embarcações surgiu em abril deste ano, quando a 412ª Brigada de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia abateu dois Shaheds russos usando drones interceptadores lançados de uma plataforma aquática.

Os sistemas precisam se adaptar continuamente a novas ameaças, utilizando robôs aéreos, marítimos e terrestres em diferentes combinações. A próxima fase para a tecnologia ucraniana, segundo o Nono, será equipar os drones marítimos com armas pesadas de longo alcance.

Os comandantes ucranianos veem a chave para a guerra com drones não em nenhum dispositivo específico, mas nas equipes que se adaptam rapidamente.

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“A tecnologia não é o que mais importa”, disse o tenente-coronel Yuriy Kochevenko, que comanda o batalhão marítimo da 412ª brigada. “O que importa são as pessoas.”

Drones navais da Ucrânia estão transformando a guerra com a Rússia no mar – Estadão 

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Ao invés de milhas, tokens: como a China está transformando IA em moeda do dia a dia

Bancos, cafés e operadoras de telefonia na China oferecem créditos de inteligência artificial como quem dá milha aérea ou Wi-Fi grátis — e o consumo diário do país já passa de 500 trilhões de tokens

André Lopes – Exame – 6 de setembro de 2026

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

No Brasil, “token” ainda é palavra de quem mexe com tecnologia. Na China, virou moeda de troca do dia a dia — o tipo de benefício que bancos, cafeterias e operadoras de celular usam para atrair cliente, do jeito que aqui se usa milha aérea ou pontos de cartão de crédito.

Antes de entender os casos, vale explicar o termo. Um token de IA é a unidade de processamento que um modelo de inteligência artificial usa para “ler” e “escrever” texto. Quando alguém faz uma pergunta a um chatbot, a frase é quebrada em pedacinhos, os tokens, que o modelo processa para gerar a resposta. Quanto mais texto você troca com uma IA, mais tokens consome — e cada token tem um custo computacional por trás, pago em eletricidade e chips.

O consumo desses tokens na China deu um salto absurdo: saiu de 100 bilhões por dia, no início de 2024, para 500 trilhões por dia em meados deste ano — um crescimento de 5.000 vezes em pouco mais de dois anos.

Esse volume só é possível porque o preço caiu na mesma proporção: modelos chineses de código aberto, mesmo ficando atrás dos americanos em alguns testes de desempenho, custam de 60% a 90% menos que sistemas equivalentes da OpenAI e da Anthropic. Foi esse tombo de preço que abriu espaço para empresas comuns começarem a empacotar e vender tokens para o consumidor final, não só para desenvolvedores.

1. Token como recompensa de cartão de crédito

Em julho, a startup chinesa de IA Moonshot AI lançou um cartão de crédito batizado com o nome do seu modelo, o Kimi, em parceria com o Banco Agrícola da China e a American Express. Quem gasta no cartão acumula tokens do Kimi, além de cotas de uso de agentes de IA e de programação — exatamente como um cartão comum dá milha ou cashback.

A moda começou em junho, quando o China Merchants Bank lançou um cartão voltado a desenvolvedores de IA, oferecendo a novos clientes até 1,8 bilhão de tokens para uso nos modelos da MiniMax, outra startup chinesa. O Shanghai Pudong Development Bank fez o mesmo, com subsídio de até 3 bilhões de tokens para os modelos Qwen, da Alibaba.

2. Token como plano de dados de celular

As três grandes operadoras de telefonia da China passaram a vender IA do jeito que vendem internet móvel. A China Telecom oferece planos a partir de 9,9 yuans (cerca de R$ 7,50) por mês para 10 milhões de tokens, com franquias maiores para uso intenso — e mantém uma plataforma, a TokenHub, com assinaturas para 142 modelos diferentes, num movimento claro de deixar de vender só conectividade para vender também computação de IA.

A concorrência seguiu o mesmo caminho: a China Mobile chegou a oferecer 400 mil tokens por 1 yuan (cerca de R$ 0,75) em Xangai, cobrado direto na conta de celular; a China Unicom tem planos mensais que vão de 15 yuans (R$ 11) por 6 milhões de tokens a 45 yuans (R$ 34) por 18 milhões, voltados a uso empresarial.

3. Token como brinde, no lugar do Wi-Fi grátis

Em vez de oferecer internet sem fio de graça, um, um número crescente de bares, cafés e restaurantes chineses está atraindo cliente com computação de IA gratuita. No AGI Bar, em Pequim, quem compra uma bebida e se conecta ao Wi-Fi ganha acesso ilimitado ao modelo DeepSeek V4 Flash — o bar, voltado a programadores e fundadores de startups de IA, roda o modelo localmente numa estação de trabalho Nvidia DGX Spark.

Perto dali, a casa de bolinhos Jingu Yuan dá aos clientes o equivalente a 10 yuans (R$ 7,50) em créditos de computação depois da refeição. Um cartão nas mesas do restaurante avisa: “Você já se encheu de bolinho. Agora vá buscar uns tokens no caixa para seu agente de IA também se alimentar de energia computacional.” As duas unidades do restaurante distribuem mais de 100 vales por dia. Em Changsha, uma cafeteria que funciona 24h usa a mesma tática, oferecendo tokens de IA junto com o café.

4. Token revendido como produto usado

Os tokens chegaram até ao maior site chinês de venda de produtos usados, o Xianyu (do grupo Alibaba), conhecido por vender celular, móvel e roupa de segunda mão. Nele, vendedores anunciam pacotes de acesso barato a modelos de IA, medidos em tokens: milhões de tokens por poucos dólares, em passes diários, assinaturas mensais ou acesso compartilhado a contas de IA.

Alguns vendedores fracionam cotas de uso e revendem para estudantes, desenvolvedores independentes e pequenas empresas. Outros tentam lucrar com a diferença entre o preço oficial do token e o acesso com desconto (ou até gratuito) que conseguiram por outra via — um mercado paralelo nascendo em cima da própria commodity de IA.

5. Token como garantia de empréstimo bancário

O caso mais inusitado é financeiro. Com a explosão de startups de IA na China, os bancos passaram a ter dificuldade para avaliar o risco de crédito dessas empresas jovens, que não têm os ativos físicos tradicionais (imóvel, maquinário) usados para embasar um empréstimo.

Bancos da cidade de Guangzhou estão testando os tokens como saída. O distrito de Haizhu lançou em agosto um produto financeiro chamado “empréstimo de token” (token loan), que permite a bancos como o Bank of China, o China CITIC Bank e o Bank of Guangzhou medir quanto uma empresa produz e consome em tokens de IA para decidir quanto ela pode tomar emprestado — tratando o uso de inteligência artificial como um indicador de saúde do negócio, no lugar do balanço patrimonial tradicional.

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‘IA vai às compras’: como robôs que pesquisam ofertas e fecham negócio podem transformar o varejo brasileiro

Prioridade estratégica para empresas no mundo todo, o comércio agêntico pode movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030; no Brasil, Magazine Luiza e Visa iniciam testes

Por Patrícia Basilio – Época Negócios – 10/03/2026

Ir às compras deixou de ser uma tarefa exclusivamente humana. Com o avanço da tecnologia no varejo — tema destacado na NRF 2026, realizada em janeiro em Nova York (EUA) —, os agentes de inteligência artificial também devem realizar essa tarefa a partir de agora.

Como funciona? Na prática, o robôs pesquisam preços, monitoram promoções, avaliam o momento ideal para fechar o negócio e, quando encontram uma oferta dentro dos critérios definidos pelo consumidor, concluem a compra automaticamente.

Pesquisa realizada pela fintech Adyen aponta que 56% dos varejistas brasileiros classificam o comércio agêntico como prioridade estratégica e planejam lançar jornadas de compra autônomas em até um ano. O motivo é claro: os brasileiros são entusiastas de tecnologia. O levantamento mostra que 70% dos consumidores permitiriam que a IA cuidasse de todo o processo de compra, inclusive do pagamento final. Estudo da consultoria norte-americana Edgar, Dunn & Company estima que o comércio agêntico global poderá movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030.

O Magazine Luiza foi o primeiro varejista brasileiro a operar agentes de inteligência artificial. A empresa lançou a tecnologia em novembro do ano passado, inicialmente em fase beta, e depois ampliou o serviço para sua base de 30 milhões de clientes por meio do WhatsApp. Para aproximar o público da novidade, a varejista utiliza a Lu como articuladora da conversa.

É ela quem divulga ofertas aos clientes com base em produtos vendidos tanto pelo próprio Magalu quanto por vendedores do marketplace. A interação com a influenciadora virtual pode ocorrer por texto, voz e imagens, e o pagamento, por Pix ou cartão de crédito, é feito dentro do próprio chat.

Humanização das transações

“Ao longo desses 20 anos, a Lu evoluiu junto com a tecnologia. Ao integrar o WhatsApp à personagem, que tem uma relação de grande confiança com os consumidores, vimos a oportunidade de criar um canal importante de comunicação e trazer mais calor humano para essa interação”, afirma Ricardo Querino, diretor de experiência e relacionamento com cliente do Magalu.

A segurança é um desafio quando novas tecnologias envolvem transações financeiras. Para garantir a confiança dos clientes, a varejista garante que as conversas com a Lu pelo WhatsApp são criptografadas e exige que o usuário aceite um termo de consentimento para o uso da IA. Além disso, o número de telefone deve corresponder ao cadastrado na conta do Magalu.

A preocupação com segurança e governança também tem orientado iniciativas de grandes empresas do setor de pagamentos. A Visa, por exemplo, lançou no Brasil há um ano a plataforma Visa Intelligent Commerce, desenvolvida em parceria com Microsoft, OpenAI, IBM, Samsung, Stripe, Anthropic, Mistral AI e Perplexity. A tecnologia está sendo implementada em duas etapas. Na primeira, já em prática, o chatbot pesquisa produtos e compara preços de acordo com o perfil de consumo do usuário, mas o pagamento ainda é realizado pelo próprio cliente.

Na etapa seguinte, que deve se consolidar entre o fim deste ano e o início de 2027, a própria IA poderá concluir a compra de forma autônoma — desde que autorizada — ao encontrar um produto ou serviço dentro dos parâmetros definidos pelo consumidor.

“Estamos desenvolvendo a tecnologia de segurança necessária para que, em breve, os agentes possam finalizar compras de forma autônoma. Um exemplo é a busca por passagens aéreas: o robô monitora os preços e realiza a compra quando encontra uma oferta viável. Para isso, o consumidor poderá deixar previamente configurada uma autorização ou um limite de valor para pagamento”, diz o executivo.

Diversidade de canais

Na avaliação de Renato Migliacci, vice-presidente de vendas da Adyen Brasil, os agentes de IA irão conviver com os canais tradicionais do comércio. “Os agentes de e-commerce são um novo canal de venda, não o fim dos antigos. O varejo físico não vai acabar”, afirma o especialista.

Uma das primeiras empresas do mundo a integrar sua carteira digital ao ChatGPT, o PayPal estuda trazer ao Brasil seu projeto completo de comércio agêntico — modelo em que o usuário recebe ofertas e pode concluir transações automaticamente por meio de um robô.

Segundo Brunno Saura, diretor-geral de vendas do PayPal no Brasil, o país é um mercado estratégico para a empresa expandir sua atuação na América Latina e testar novas tecnologias. Ainda não há uma data definida para o lançamento do serviço no Brasil, mas a companhia já está em busca de parceiros.

“O varejo vai passar por uma grande transformação. Os vendedores agora terão que alimentar a IA para posicionar bem um produto nas buscas. O desafio será como se comunicar melhor com o consumidor e vender mais via bot”, diz Saura.

‘IA vai às compras’: como robôs que pesquisam ofertas e fecham negócio podem transformar o varejo brasileiro 

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A educação deve mirar a tecnologia, mas também as artes

Evandro Milet – Folha Vitória – 24/09/2026

O modelo educacional focado em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) surgiu nos EUA como a resposta para suprir a demanda explosiva do mercado tecnológico. No entanto, a evolução desse conceito para STEAM — que integra a letra “A” de Artes — reflete a percepção de que a inovação necessita da criatividade humana. Einstein dizia que ao tocar violino, seu cérebro entrava em um estado de fluidez, e era nesse momento que novas conexões e soluções surgiam. Ele acreditava que música e ciência eram expressões de uma mesma busca pela beleza e coerência. É importante notar que o conceito de “Arts” nas universidades americanas envolve também toda  área de humanas.

Para o Brasil, essa transição para STEAM está diretamente vinculada ao avanço da economia criativa, um ecossistema que engloba, entre outros temas,  design, audiovisual, literatura, música, teatro, artes plásticas, museologia e galerias de arte. De acordo com dados da Firjan, a indústria criativa responde por 3,59% do PIB nacional, sustentando mais de 7,4 milhões de trabalhadores no país. Diante do avanço avassalador da Inteligência Artificial (IA), estudos globais estimam que tarefas ligadas a até 12% da força de trabalho atual podem ser automatizadas ou substituídas por algoritmos. 

Em contrapartida, projeções oficiais do Observatório Nacional da Indústria revelam que a economia criativa brasileira deve gerar 1 milhão de novos empregos até 2030, impulsionada justamente por setores que exigem o discernimento, a originalidade e a sensibilidade humana, tornando-se um porto seguro contra o desemprego tecnológico. 

A televisão brasileira, por exemplo,  impulsiona diretamente dezenas de milhares de postos de trabalho e engloba uma cadeia produtiva complexa. Esse avanço técnico e criativo reflete-se nas premiações recentes do cinema nacional, que vive um grande momento de aclamação internacional como aconteceu com “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Como bem definiu o poeta Ferreira Gullar, “A arte é necessária porque a vida não é suficiente”. 

Paralelamente, a relevância do Brasil no mercado global de entretenimento transformou o país em parada obrigatória no roteiro das grandes apresentações musicais. A infraestrutura de grandes arenas nacionais atrai as maiores e mais complexas produções técnicas da atualidade, movimentando turnês de superestrelas internacionais que exigem uma enorme cadeia de engenharia de som e iluminação. A música brasileira também ganhou uma variedade enorme de ritmos expressos em apresentações de grande porte e nova leva de empregos. 

Também o avanço técnico das experiências imersivas nos museus redefiniu a relação do público com a arte, utilizando projeções mapeadas e realidade virtual através de equipes multidisciplinares. O próprio Steve Jobs, ícone da tecnologia, costumava citar Leonardo da Vinci – que, além da pintura, também deixou sua marca na ciência, especialmente na anatomia e na mecânica – ao dizer que “A simplicidade é a máxima sofisticação”. E completava com uma máxima que define o espírito do STEAM: “Tecnologia sozinha não é suficiente – é a tecnologia, casada com artes e humanidades, que criam o resultado que nos encantam.” 

Portanto, o problema brasileiro de enxergar as disciplinas exatas separadas das manifestações humanas cai por terra diante da realidade do mercado e do desenvolvimento cognitivo. A inclusão das artes humaniza e profissionaliza as ciências exatas. Como defendia Paulo Freire, é por meio da arte que se desenvolve a percepção e a imaginação para apreender a realidade, gerando a capacidade crítica necessária para transformá-la. Diante dos robôs e dos algoritmos, o papel de manter o que temos de mais genuíno recai sobre as disciplinas criativas. 

As indústrias antigamente apenas fabricavam produtos. Hoje elas se preocupam com design, marketing e redes sociais. Você pode fabricar um tênis em qualquer lugar, mas só conseguirá vendê-lo por 300 dólares se conseguir associar uma história ao produto ou à marca. 

Melissa Nobles, reitora da Escola de humanidades, artes e ciências sociais do MIT sintetiza: “Ainda bem que a literatura, a música, as artes e as ciências humanas existem para nos lembrar o que significa ser humano”. Inspirado, o designer John Maeda ressalta que o modelo STEM é capaz de resolver problemas, mas as artes descobrem quais problemas realmente valem a pena ser resolvidos. 

O Brasil necessita urgentemente aumentar a pontuação nos critérios internacionais de avaliação do Pisa em Português, Matemática e Ciências. Ficamos no 68º lugar geral em 91 países. Escandalosamente, cerca de 60% dos jovens terminam o ensino médio na rede pública sem saber o básico em matemática. Porém, somente ao unir de forma definitiva a educação, a tecnologia e as artes seremos capazes de formar cidadãos autônomos, inventivos e prontos para liderar o século XXI.

A educação deve mirar a tecnologia, mas também as artes – Folha Vitória 

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E aí, candidato? E os empreendedores? Quem se eleger terá de responder com política pública concreta

O segundo maior sonho dos brasileiros é abrir um negócio; qualquer um que queira governar este país precisa entender o que isso exige

Por Camila Farani – Estadão – 30/09/2026

Nos meus dias mais cansativos, quando olho para a agenda cheia, para as demandas que não param e para a complexidade de operar empresa no Brasil, tenho um pensamento que guardo para mim: por que é tão difícil empreender aqui? O ambiente não merece o sonho que as pessoas trazem.

A burocracia é pesada, o juro é caro, o imposto é confiscatório, o crédito é escasso. A mão de obra que você quer não está onde você está, e a regulação muda de posição de um governo para o outro sem avisar. Empreendo há mais de 24 anos. Sei do que estou falando. Comecei vendendo café expresso a 50 centavos.

E, mesmo assim, empreender é a minha vida. É o que me define. É o que vejo nos olhos de quem chega à FEN Educação com uma ideia e quer transformar em negócio. É o que me fez criar empresa, investir em empresa, ensinar empreendedor. A tensão entre o ambiente que desencoraja e o impulso que persiste é o paradoxo mais brasileiro que conheço.

O GEM 2025, maior pesquisa mundial de empreendedorismo conduzida no Brasil pelo Sebrae, confirma o movimento com precisão: em um ano, o porcentual de brasileiros que colocam abrir um negócio entre seus maiores sonhos foi de 34% para 40%, o maior salto entre todos os sonhos pesquisados, subindo da terceira para a segunda posição, atrás apenas da casa própria.

A pesquisa Quaest de setembro, que perguntou qual é o maior sonho de cada eleitor, colocou empreender em quarto lugar com 9% das menções. Os dois dados contam a mesma história por ângulos diferentes: num país onde casa própria e saúde dominam as urgências do cotidiano, empreender disputa espaço com os sonhos mais básicos. E ainda assim avança.

O país que vai às urnas em outubro tem o empreendedorismo como segundo maior sonho coletivo. E vai eleger um presidente que vai precisar, obrigatoriamente, responder a esse dado com política pública concreta. Não com discurso de palanque. Com ambiente.

O próximo presidente vai herdar um país onde uma em cada quatro empresas fecha antes de completar dois anos. Onde a carga tributária sobre as pequenas empresas consome entre 30% e 40% do faturamento dependendo do setor e do regime. Onde o crédito para capital de giro custa entre 3% e 5% ao mês. Onde abrir um CNPJ leva dias e fechar leva meses. Onde contratar um funcionário com carteira assinada custa ao empregador aproximadamente 70% a mais do que o salário nominal que o trabalhador recebe.

Esses não são dados de pessimismo. São o ambiente em que 42,5 milhões de brasileiros querem empreender, segundo novamente o GEM 2025, maior pesquisa mundial de empreendedorismo, conduzida no Brasil pelo Sebrae.

O paradoxo central do empreendedorismo brasileiro é que as pessoas empreendem apesar do ambiente, não por causa dele. Em 2017, apenas 18% da população citava abrir negócio entre os principais sonhos. Hoje, são 40%. O sonho cresceu. O ambiente não cresceu na mesma proporção.. Ainda é muito alta.

Os desafios que o próximo presidente vai encontrar não são abstratos. São cinco concretos que qualquer agenda séria de empreendedorismo precisa endereçar.

Primeiro, o custo de abrir e fechar empresa.

Segundo, o custo do crédito.

Terceiro, a carga tributária sobre micro e pequenas empresas.

Quarto, a qualificação da mão de obra.

Quinto, a estabilidade regulatória.

Os candidatos que disputam outubro apresentam respostas diferentes para esses cinco problemas. Alguns apostam em desburocratização radical, privatização de estatais e redução de carga tributária como caminho para liberar o empreendedorismo.

Outros apostam na expansão do crédito público, no fortalecimento (ou não) do Simples e em programas de capacitação como ferramentas de inclusão produtiva. E há quem veja o empreendedorismo como consequência natural de uma economia que cresce, sem política específica para o setor.

Nenhuma dessas respostas, isoladamente, resolve os cinco problemas ao mesmo tempo. Desburocratizar sem baratear o crédito ajuda quem já tem capital. Baratear o crédito sem reformar o custo tributário cria dívida que o negócio não consegue pagar. Formar empreendedor sem melhorar o ambiente é preparar alguém para um campo minado.

O próximo presidente vai precisar de agenda integrada, não de medida isolada. E vai precisar de continuidade, o que historicamente é o ativo mais escasso da política brasileira.

A pergunta que os 42,5 milhões de brasileiros que querem empreender vão fazer nas próximas semanas não é ideológica. É prática: o que você vai fazer, concretamente, para que meu negócio tenha mais chance de sobreviver do que os que vieram antes?

Empreender no Brasil é difícil. Continuará sendo enquanto os cinco problemas acima não forem endereçados com seriedade e continuidade. O segundo maior sonho dos brasileiros merece uma resposta à altura. Essa resposta não é palanque. É política pública que dura mais de um mandato.

Opinião por Camila Farani

Investidora, presidente da G2 Capital e CEO da FEN educação para negócios. 

E aí, candidato? E os empreendedores? Quem se eleger terá de responder com política pública concreta – Estadão 

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The Economist: O apocalipse do emprego foi adiado; um boom de empregos na área de IA chegou

Apesar das demissões, a IA já criou cerca de 1 milhão de novos empregos, superando cortes e impulsionando setores como construção e tecnologia

Por Estadão/The Economist – 12/09/2026

Talvez as máquinas acabem tornando muitos humanos desempregáveis ​​— mas ainda não há indícios disso. Em 4 de setembro, o Departamento de Estatísticas do Trabalho informou que a economia americana criou 162 mil empregos em agosto, muito acima das expectativas. A taxa de desemprego é de 4,1%, menor do que em quase 90% dos meses do último meio século.

Os jovens trabalhadores, frequentemente vistos como as primeiras vítimas da inteligência artificial, estão se saindo muito bem: a diferença entre o desemprego na faixa etária de 20 a 24 anos e a taxa geral está próxima da mínima em várias décadas.

Algumas empresas e trabalhadores estão sendo severamente impactados pela IA. As contratações em serviços profissionais e empresariais estão cerca de 10% abaixo da média de 2015-2019. Gigantes da tecnologia, como Microsoft e Meta estão reduzindo o número de funcionários à medida que reorganizam seus negócios em torno da tecnologia. Empresas menores, como a Block, proprietária do Square e do Cash App, e a Intuit, criadora do TurboTax e do QuickBooks, estão substituindo pessoas por bots. Empresas americanas anunciaram, em média, cerca de 16 mil cortes de empregos relacionados à IA por mês neste ano, segundo a consultoria trabalhista Challenger, Gray & Christmas.

Mas as demissões relacionadas à IA se perdem em um mercado de trabalho instável, em que os empregadores dispensam cerca de 1,7 milhão de trabalhadores em um mês típico. E as evidências até agora mostram que a IA já está criando muitos empregos para substituir aqueles que foram eliminados. Os vastos investimentos em data centers e geração de energia desencadearam uma corrida por trabalhadores da construção civil e infraestrutura.

Startups de IA estão contratando como se não houvesse amanhã. Empresas tradicionais, correndo para acompanhar o ritmo, estão criando novas funções na área de IA. E, ao tornar alguns trabalhadores mais produtivos, a IA pode estar aumentando a demanda por seus serviços.

Somando tudo, a revista The Economist estima que a IA já criou cerca de 1 milhão de novos empregos nos Estados Unidos. Esse número supera facilmente as aproximadamente 200 mil demissões atribuídas à IA desde meados de 2023 e parece mais do que suficiente para compensar a queda nas contratações em muitas funções administrativas.

O investimento em infraestrutura de IA nos Estados Unidos gerou muitos desses empregos. Os gastos com os equipamentos necessários para o funcionamento da IA ​​— de chips e servidores a data centers, sistemas de refrigeração e energia — são cerca de US$ 500 bilhões por ano superiores aos de 2022, quando o mundo conheceu o ChatGPT, segundo cálculos do Goldman Sachs.

A construção de data centers, por si só, está a uma taxa anual de mais de US$ 75 bilhões, quase 60% a mais do que no ano passado, de acordo com dados do Departamento do Censo dos Estados Unidos. Essa onda de construções exige verdadeiros exércitos de trabalhadores: eletricistas para instalar a fiação dos racks de servidores, especialistas em climatização para evitar o superaquecimento, engenheiros de redes elétricas para conectá-los à fonte de energia e técnicos para instalar e fazer a manutenção das máquinas.

O aumento expressivo nas contratações é visível nos números. A revista The Economist acompanhou cinco setores essenciais para a construção de data centers, desde instalações elétricas até a fabricação de equipamentos. Desde 2023, o emprego nesses setores cresceu cerca de 320 mil vagas a mais do que as tendências gerais da construção civil e da indústria manufatureira sugeririam. O Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS) prevê que o setor de serviços públicos será o de grande porte com o crescimento mais rápido entre agora e 2035.

Nem todos esses empregos devem sua existência à IA — atualizações de redes elétricas e outras questões relacionadas à construção de fábricas também são relevantes. Mas muitos deles, sim. De fato, um site de empregos constatou que as vagas em data centers mais que dobraram em dois anos, mesmo com a queda geral no número de vagas anunciadas. A rede social LinkedIn estima que quase meio milhão de empregos em data centers foram criados entre 2023 e 2025 nos Estados Unidos, com técnicos e engenheiros entre as contratações mais comuns recentemente.

A corrida por trabalhadores também se reflete nos salários. O Indeed constatou que vagas de instalação e manutenção em data centers oferecem salários cerca de 40% superiores aos de funções semelhantes em outros setores. Dados oficiais corroboram essa tendência. Entre janeiro e junho, o salário médio por hora aumentou mais de 13% na fabricação de equipamentos elétricos e quase 8% entre os empreiteiros elétricos.

Mesmo com os aumentos salariais, ainda não é fácil encontrar trabalhadores. Em uma visita recente a uma fábrica de transformadores, Donald Leavens, da Associação Nacional de Fabricantes de Equipamentos Elétricos, perguntou à diretora executiva da empresa de que tipo de ajuda ela mais precisava. “Você pode vir aqui e operar uma de nossas linhas de produção para mim?”, ela respondeu.

Não são apenas os capacetes de segurança que estão se proliferando. A IA também está criando uma nova classe de empregos de escritório. Engenheiros constroem os modelos, anotadores de dados rotulam suas entradas e avaliam suas respostas, engenheiros de implementação os adaptam para os clientes e os recém-criados “chefes de IA” decidem o que as empresas devem fazer com a tecnologia. Algumas dessas funções praticamente não existiam até recentemente. Muitas estão crescendo rapidamente em número. As vagas para chefes de IA, engenheiros de IA e diretores de IA praticamente dobraram desde 2023-2024, de acordo com o LinkedIn.

Os números começam a soar. Uma pesquisa preliminar de Gad Levanon, economista-chefe do Burning Glass Institute, utiliza o banco de dados de histórico profissional da instituição (que se baseia principalmente em históricos profissionais do LinkedIn) para identificar empregos que não existiriam sem IA, seja em empresas nativas de IA ou por serem funções específicas de IA em outras empresas.

Ele estima que cerca de 1% dos empregos profissionais sejam agora “empregos de IA” — cerca de 1 milhão de posições nos Estados Unidos. Em ocupações na área de computação e ciências da vida — incluindo pesquisadores que usam IA para descobrir novos medicamentos —, a participação é de 4% a 5%. A própria análise do LinkedIn aponta para aproximadamente 640 mil novos empregos específicos de IA entre 2023 e 2025. “Até o momento, as evidências sugerem que a IA tem sido uma criadora líquida de empregos”, afirma Kory Kantenga, chefe de economia para as Américas do LinkedIn.

A revista The Economist acompanhou o emprego em ocupações profissionais mais próximas do boom da IA ​​— engenheiros, desenvolvedores de software, matemáticos e cientistas de dados — e comparou seu crescimento desde 2022 com o emprego profissional em geral. Essas funções adicionaram aproximadamente 730 mil empregos acima da tendência nos últimos anos. A IA não criou todos eles, mas certamente criou muitos.

Uma terceira fonte de empregos vem dos ganhos de produtividade. A IA permite que advogados redijam contratos mais rapidamente e que analistas examinem relatórios financeiros em minutos. Se o aumento da produtividade reduzir o custo dos serviços profissionais, é possível que a demanda por eles aumente o suficiente para gerar mais empregos no geral.

Algumas das profissões antes consideradas mais vulneráveis ​​à IA parecem estar se beneficiando desse efeito. Entre 2023 e 2025, o emprego de assistentes jurídicos aumentou cerca de 11% e o de analistas de pesquisa de mercado, 6%, em comparação com a média nacional de cerca de 2%. Apesar dos alertas sobre demissões iminentes, prevê-se que os serviços profissionais continuem crescendo rapidamente graças à demanda por sistemas de IA e consultoria, de acordo com as projeções do BLS (Bureau of Labor Statistics).

Quem está sofrendo com a IA?

Algumas profissões estão sofrendo. Desde janeiro de 2023, o emprego caiu cerca de 10% entre os trabalhadores de atendimento ao cliente e aproximadamente 15% entre secretários e assistentes administrativos. Todas as três áreas envolvem muitas tarefas rotineiras, nas quais os agentes de IA se destacam cada vez mais. O Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS) prevê que as ocupações de escritório e de apoio administrativo perderão 752 mil empregos até 2035.

Mas, à medida que as capacidades da IA ​​se expandem, é provável que ela continue criando novos empregos. Mais de 6 milhões de americanos trabalham atualmente em ocupações relacionadas à informática que não existiam na era pré-computadores. Outros 8 milhões trabalham em novos setores, como a economia gig, o comércio eletrônico e a criação de conteúdo. Os trabalhadores do futuro poderão supervisionar equipes de agentes autônomos ou resolver disputas entre eles. Fantasioso? Talvez. Mas ser um influenciador também era, há uma ou duas décadas.

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A força por trás do sucesso da Embraer: como o ITA desenvolveu a indústria aeronáutica brasileira

O sucesso internacional da Embraer e a transferência de tecnologia de caças da Saab foram possíveis graças a engenheiros formados pela instituição de São José de Campos que agora chega ao Ceará

Por Carlos Eduardo Valim – Estadão – 27/09/2026

O dia 28 de agosto marcou o primeiro voo do jato Gripen F, decolando do aeródromo da Saab em Linköping, na Suécia. Mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros participaram do desenvolvimento do modelo, uma parceria entre o Brasil e o país nórdico, por meio de programa de transferência de tecnologia.

Ao mesmo tempo, a brasileira Embraer tem sido vista como uma potencial protagonista no próximo ciclo tecnológico da indústria aeronáutica mundial. Com uma carteira de pedidos recorde de cerca de US$ 34,5 bilhões, é considerada por analistas globais do setor ter a capacidade de fabricar aeronaves de maior porte e desafiar as gigantes Boeing e Airbus, que enfrentam longas filas de espera e atrasos operacionais.

Esses dois fatos recentes se unem e mostram que o setor aeronáutico brasileiros vive um momento especial. Eles só se tornaram possíveis por conta da existência do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), idealizado em uma comissão estabelecida em 1945 e fundado em 1950, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba.

Com investimentos federais e estaduais, o novo campus do ITA fortalece o protagonismo educacional do Ceará e conecta a formação de engenheiros às demandas contemporâneas, como energia renovável e sistemas tecnológicos Foto: Governo do Ceará/Divulgação

“Não é qualquer país que teria 200 engenheiros formados capazes de serem exportados para aprender por dois anos na Suécia como fazer um caça de última geração, com muita tecnologia embarcada, voltar, internalizar o conhecimento e montar um avião. Só as grandes potências e o Brasil podem. Nenhum outro da América Latina seria capaz de fazer essa transferência de tecnologia”, afirma o presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Anderson Correia, ex-reitor do ITA.

‘Tecnologia se conquista’

A filosofia que tornou isso possível foi expressa, por exemplo, em uma entrevista concedida nos anos 1980 para a revista Veja pelo então reitor Tércio Pacitti, o único militar entre os 23 reitores da história da instituição: “Tecnologia se conquista”.

Por sete décadas e meia, o ITA formou engenheiros que permitiram não só apenas tornar o Brasil um competidor mundial no setor de aviões, como também capazes de contribuir para diversos outros setores relevantes e áreas de conhecimento avançado. Cerca de 9 mil deles saíram de suas salas de aulas, entre as mais concorridas do País.

Entre os seus expoentes de diversas outras áreas de conhecimento, estão o engenheiro e físico Rogério Cerqueira Leite, fundamental para a criação do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), e Anderson Soares, fundador Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), o principal dessa área no País. E até Silvio Meira, um dos criadores do Porto Digital, tema do primeiro exemplo dessa série de reportagens publicada por Estadão, veio das fileiras do ITA, da turma de 1977.

O ITA fecha esta série, que também contou a história da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por conta do período de defeso eleitoral, a instituição, que responde à FAB, declinou de conceder entrevista de seus porta-vozes ou dar acesso para filmagens em suas instalações. Mas a trajetória de seus principais personagens e seus marcos históricos têm sido contados, ao longo dos anos, por diversas testemunhas e por livros.

O escritor Fernando Morais, autor de biografias conhecidas sobre a militante Olga Benário, o jornalista e empresário Assis Chateaubriand e o escritor Paulo Coelho, além de uma trilogia sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicou há 20 anos Montenegro – As Aventuras do Marechal que fez a Revolução nos Céus do Brasil, um livro com a história de Casimiro Montenegro Filho, o marechal Montenegro, idealizador da instituição. A obra deve virar minissérie de TV, o que promete divulgar ainda mais os seus feitos.

Pioneiro da aviação brasileira, Montenegro participou da Revolução de 1930, esteve entre os militares da criação do Ministério da Aeronáutica e da FAB em 1941, e lutou de 1945 a 1950 para criar o ITA, o que exigiu muita dedicação, desavenças e convencimento frente ao presidente da República, ministros e integrantes das Forças Armadas.

Origem do ITA

Já na década de 1910, Santos Dumont visitou os EUA e viu uma fábrica produzindo 10 aviões ao mesmo tempo. A sua invenção estava virando bem industrial, e ele escreveu no seu diário que o Brasil deveria ter uma escola aérea, e que deveria ficar ao longo da Central do Brasil, com sugestão da região de Mogi das Cruzes (SP). A ideia era que todos morassem e estudassem no mesmo local.

Mas o plano nunca foi levado à frente, até os anos 1940, quando Montenegro também rumou para os EUA. Ele deveria ir para a Universidade de Dayton, em Ohio, mas foi convidado para conhecer o Massachusetts Institute of Technlogy (MIT) e decidiu que o Brasil deveria ter algo parecido, capaz de contribuir para a sociedade brasileira e dialogar com a iniciativa privada. Convenceu o professor Richard Smith a vir morar no Brasil e ser o primeiro reitor da instituição.

Em 1945, Smith proferiu uma famosa e premonitória palestra, no Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, chamada “Brasil – Futura Potência Aérea”. Ele defendia que, no pós-guerra, o Brasil não deveria importar aviões nem de graça. O plano Smith contemplava não só criar o ITA, mas também o Centro Técnico Aeroespacial (CTA). E ele falava até que o Brasil deveria fabricar cargueiros, o que só se tornou realidade no novo milênio, com o KC-390.

“O fato de o Brasil fabricar aviões e o surgimento da Embraer não foram obra de acaso. Houve uma orquestração, passo a passo, quase como um plano quinquenal ou um plano chinês”, diz Correia. “Quando contamos a história de forma romântica pensamos apenas nos heróis do ITA e da Embraer. Eles existiram, sim, mas houve antes um plano-mestre até chegar nos primeiros aviões da Embraer.”

Aulas mais em inglês do que em português

Durante duas décadas, os cinco primeiros reitores do ITA foram estrangeiros, ao mesmo tempo que Montenegro acompanhava todo esse início de história, de major até se tornar marechal. Por anos, as aulas eram mais ministradas em inglês do que em português.

“O ITA devia ser o local mais internacional e cosmopolita do Brasil na época, com pessoas de mais de 20 países morando juntas”, diz Correia. A mulher de Montenegro era grande apreciadora das artes, e o marechal garantiu que fossem erguidos teatro e cinema no local. Os professores e engenheiros trazidos da Europa e EUA para viver no ITA chegavam com grande bagagem cultural, contribuindo para as rodas de conversas.

Diferentemente de outras instituições de ensino ligadas aos militares, o ITA também sempre manteve um forte caráter civil. Isso tinha relação a uma cultura desenvolvida por homens que eram civis. O primeiro ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho, fundamental na criação da FAB, era civil.

O projeto do avião Bandeirante, na década de 1960, foi tocado no CTA por Ozires Silva, formando do ITA que seria o fundador da Embraer Foto: Divulgação

Afinal, a aviação era na época uma novidade, e até mesmo Santos Dumont foi um civil. Com essa cultura, no ITA, os professores civis sempre moraram e conviveram com os militares. Os engenheiros que eram importados da Europa para fazer a transferência de tecnologia para aviões que seriam construídos pela Embraer também viviam nos mesmos alojamentos.

Uma cultura particular

Uma das exigências trazidas por Smith quando chegou ao País era a de criar uma cultura diferente do ensino local. Se o jeitinho brasileiro fazia as instituições olhar de lado para pequenos desvios de seus alunos, a cola no ITA se tornou mais do que um tabu. Criou-se um código de ética em que alunos e professores não tolerassem cópias de trabalhos e provas entre os alunos. O trabalho duro seria recompensado.

Afinal, só assim, se poderia chegar aos projetos de aviões fabricados localmente. Isso aconteceria por meio do projeto do avião Bandeirante, na década de 1960, tocado no CTA por Ozires Silva, formando do ITA que seria o fundador da Embraer. O trabalho envolveu cerca de 300 pessoas e incluiu até um planador, pronto antes, o Urupema.

“Apesar de todas as dificuldades, Ozires contou com uma equipe muito boa e também deu sorte de receber o apoio de militares de alta patente da época”, diz Manoel de Oliveira. Vice-presidente da Embraer na época da privatização da empresa, nos anos 1990, ele trabalhou com Ozires por 50 anos, desde o período no CTA, em 1969.

“Até a apresentação do Bandeirante ao presidente Costa e Silva aconteceu por sorte, por que ele iria para uma solenidade no Vale do Paraíba, num domingo, mas não pôde pousar no local planejado na escola de Guará e rumou para São José dos Campos.” Ozires orientou que o avião pousasse, então, de frente ao hangar onde estava o protótipo do Bandeirante, à vista do presidente. Isso permitiu que a Embraer fosse criada logo em seguida.

Ozires a bordo de um avião da primeira geração dos E-Jets Foto: Embraer/Divulgação

Hoje, a Embraer é a fabricante com aviões que mais fazem voos dentro dos EUA. No Aeroporto de LaGuardia, em Nova York, o maior para voos regionais do país, eles representam um terço de toda a frota que trafega por ali.

Um ITA na terra de Montenegro

Agora, toda a cultura desenvolvida em São José dos Campos em torno do ITA está chegando ao Ceará, Estado de nascimento de Montenegro. Em janeiro, foi colocada a pedra fundamental do futuro campus da instituição, que ocupará a Base Aérea de Fortaleza, hoje parcialmente desativada.

O projeto custará R$ 400 milhões. Mas, diferentemente do ITA original, com o seu foco na indústria aérea, não haverá curso de engenharia nessa área. Ele começa com engenharia de energia e de sistemas, e deve ter aulas também de biotecnologia.

“O segredo é não dividir os esforços. A instituição deve contribuir com outros setores do conhecimento”, diz Correia. “O futuro do ITA pode ser esse, ajudando em carro a hidrogênio e data centers. Seria como o Indian Institute of Technology (IIT), que formou o Sundar Pichai, CEO do Google, e outros CEOs famosos, criando ITAs em várias áreas do conhecimento.”

Para Correia, o diferencial do ITA e do projeto aeronáutico brasileiro para outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso, como o da área espacial e de semicondutores, é que esses começaram já tentando os projetos mais complexos. O ITA antes formou pessoas e foi conquistando conhecimento passo a passo. “A gente não tem muita paciência e gosta de fazer projetos de quatro anos. Mas o que se faz hoje vai trazer resultado daqui a 10 ou 20 anos”, afirma. “Precisa esperar maturar.”

A força por trás do sucesso da Embraer: como o ITA desenvolveu a indústria aeronáutica brasileira – Estadão 

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